5.6.19

A parte que falta

Escrito e ilustrado por Shel Silverstein, “A parte que falta” é intitulada como literatura infantojuvenil, mas encanta e faz refletir os adultos mais sisudos. Publicada originalmente em 1976, já tinha seu reconhecimento literário garantido. No entanto, ganhou repercussão com o vídeo de pouco mais de oito minutos publicado por Julia Tolezano no canal JoutJout Prazer em início de 2018. Isso porque, Jou Jout não apenas lê, ela transborda com o livro. Não havia como ser diferente.

“A parte que falta” trata exatamente a falta que sentimos de uma coisa ou de outra. Essa falta que não nos deixa sossegar, que está sempre a sussurrar “vamos, você precisa encontrar a parte que falta”, como se não pudéssemos ser felizes assim como somos; como se só com a parte que falta é que estaríamos completamente plenos e satisfeitos. “Busco a parte que falta em mim”, diz o livro de Shel Silverstein que começa explicando: “Faltava-lhe uma parte e ele não era feliz. Então saiu em busca da outra parte”.
No livro, o protagonista da história é um ser circular que acredita existir pelo mundo uma forma que vai completá-lo perfeitamente e que, quando estiver completo, vai se sentir feliz de vez. Então ele parte animado em uma jornada em busca de sua parte que falta. Ao explorar o mundo, porém, percebe que a verdadeira felicidade não está no outro, mas dentro de si mesmo.
É nesta busca que dificilmente será alcançada (isso porque quando encontramos a parte que falta, sentimos falta da busca e novamente voltamos a querer algo que não temos), é que está a vida. Uma constante de falta e busca, busca e falta; encontra, perde, amassa, esbarra, aperta, quebra, machuca. No caminho em busca da parte que falta sempre há o que ver, sentir e viver. Mas às vezes, tão focados na parte que falta nem percebemos o aroma das flores, o vento no cabelo, a borboleta pousando. E é nessa caminhada chamada busca que está a nossa vida. E o que fazemos com ela? Deixamos para ser feliz depois? Depois de encontrar a parte? E se não houver a parte? E, se achando a parte, ela não fizer tão bem?  

“Enquanto rolava cantava essa canção: busco a parte que falta em mim, a parte que falta em mim. Ai ai o. Assim eu vou, em busca da parte que falta em mim”

Título: A parte que falta
Autor: Shel Silverstein
Editora: Companhia das Letrinhas
Preço sugerido: R$ 44,90

19.6.18

Na minha pele


O país, digo, o nosso país, passa por um processo transformatório gigantesco. Por vezes assustador, tenho de concordar. Estamos num momento político (e ético) nunca antes vivenciado. Acesso à cultura e a benefícios antes inimagináveis; lutas de (muitos) anos que trazem conquistas incalculáveis para as minorias; espaço para essas minorias se manifestarem; a busca pela pluralidade e, principalmente, pela valorização desta pluralidade. Mas não é só isso.
Ao mesmo tempo em que ganhamos com esses espaços, há uma corrente (crescente) de conservadorismo. Talvez há 1 ou 2 anos isso parecesse apenas que as pessoas estavam ficando mais caretas em relação a alguns temas, mas não. As pessoas estão mais radicais com relação a alguns temas. Principalmente os que tratam sobre direitos para a comunidade LGBT, por exemplo; violência e machismo contra mulheres (ainda esse assunto?!); cotas para negros (isso também?! Tá chovendo no molhado), só para citar os mais comuns, os assuntos mais clichês.
“Começou o Mimimi”, poderão sussurrar alguns que chegaram até este ponto da leitura. Mas e cadê o livro? O livro (claro, ia chegar nele) fala justamente de uma dessas minorias, que bem da verdade é minoria só nos direitos, porque são e sempre foram a grande maioria neste país, os negros. A obra, “Na minha pele”, de Lázaro Ramos é uma autobiografia, mas que não é bem biografia, dita pelo próprio escritor com uma viagem. Nesta viagem, o autor volta às origens para resgatar sua própria história, entender mais o mundo de que veio e a que pertence. Faz também um resumo de como ingressou no teatro, depois cinema e TV, mas essencialmente, apresenta como desenvolveu seu empoderamento enquanto negro. Empoderamento este que está muito em voga nos últimos anos. Mas e porque o empoderamento está em alta se vínhamos (o país) numa crescente de igualdade? Afinal, não somos todos iguais perante a lei? Voltamos aí ao início do texto quando falávamos que estamos mais “radicais”. Afinal, mesmo com a experiência, com os estudos comprovando quais são e quantas são as populações que sofrem de preconceito e injustiça social, ainda assim, o preconceito e o ódio crescem a cada dia. É como se ignorássemos a nossa própria cultura, como se não tivéssemos história, como se não fossemos o país miscigenado que somos.
E a obra de Lázaro Ramos faz justamente o contrário. Nos apresenta a realidade, com números assustadores e tristes de racismo. Revelando sua história ele apresenta a de muitos outros. E nos faz um pedido: “desfrute o prazer de estar aberto ao novo e ser curioso pelo que não conhece. Exercite o olhar, sem preconceber nada”. Parece simples, mas se fosse os índices de violência contra a população negra não seriam tão altos; a quantidade de negros em presídios e manicômios não seria a maioria; mulheres negras assassinadas não somariam 54,8% (de acordo com o último mapa da violência feito no Brasil – neste, mulheres brancas somam 9,8%). A caminhada é longa, mas cabe a cada um de nós dar um passo para a igualdade; perceber e admitir que existe racismo; e nunca deixá-lo seguir em frente, seja em piada, frase pronta ou em atitude. 

“Esses somos nós, reflexos de um espelho quebrado que, como um mosaico, apresenta um pedacinho de nossa história. Se visto com carinho, cada pedaço pode ter sua beleza, valores e complexidades reconhecidas. Para isso têm surgido novas vozes, novos portadores de microfones, prontos para ampliar suas falas, experiências e histórias. Ouçam as vozes desse Brasil plural e nosso.”

Título: Na minha pele
Autor: Lázaro Ramos
Editora: Objetiva
Preço sugerido: R$ 27

18.6.18

A mamãe é rock

Quando vi este título não resisti. Sabendo de “O papai é pop” não poderia pensar em referência melhor para a tarefa da mãe no processo de criação/educação de seus filhos. Porque mãe é rock, paulera mesmo.
Tão logo comentei com outra mãe na recepção da escolhinha do meu pequeno e ela completou: “Devia ser punk”, e deu uma gargalhada. Precisei concordar.
Mesmo com todo o envolvimento e a participação dos pais no desenvolvimento dos filhos, as mães ainda ficam com a parte “tensa” da história. Seja pelo perfil da mulher de querer resolver as coisas e fazer mil tarefas ao mesmo tempo, seja pelo perfil dos pais de, se for possível ficar só brincando, porque correr para fazer outra atividade do lar? Enfim, se não é assim na sua casa, por aqui é como a Ana Cardoso, autora do livro, relata na obra.
Escrita como um convite após o sucesso de “O papai é pop”, Ana Cardoso retrata experiências e fatos com as suas filhas também de forma leve e, principalmente, divertida. Vida de mãe é assim: divertida. Um caos, não podemos negar. Mas no processo da maternidade tem tantos outros sentimentos que um pouco de loucura só dinamiza ainda mais o dia a dia.
Para ter um gostinho do que estamos falando, segue um trecho do último texto:
“Um dia o ônibus quebra, a chupeta cai no bueiro e o teu ombro arde de dor.
No outro, um sorriso com olhos e um par de mãozinhas a agarrando firme fazem você se sentir forte e importante.
Um dia você não aguenta mais lavar os lençóis com xixi, ter cheiro de vômito e olheiras pretas de panda.
No outro, você dorme agarrada com sua prole numa cama pequena e entende que edredom nenhum jamais te fará sentir a plenitude daquele calor humano.
Um dia você não toma banho, não consegue comer direito e não entende muito bem aquela criaturinha que não desgruda de você nem um segundo.
No outro, você sai só e, ao invés de se sentir livre, sente saudades da pessoinha e entende que suas emoções nunca mais serão claras depois de ter passado por um processo de multiplicação”.
Deve ser isso, a multiplicação, para explicar ou justificar todas as mudanças que uma mãe passa. Desde as corporais, hormonais e, claro, emocionais. Na vida de uma mãe, nada é muito constante. Não existe rotina. Não há previsibilidade. Mas sabe o que é melhor nisso tudo? O amor. O mais puro e verdadeiro que por não se constante, cresce a cada dia; que por não existir rotina, se expressa nas mais diversas formas; e que por não haver previsibilidade, nos surpreende a todo o instante.

Título: A mamãe é rock
Autor: Ana Cardoso
Número de páginas: 112
Editora: Belas Letras
Preço sugerido: R$ 19,90

20.4.18

Felicidade ou morte

A escolha do título que deve encher esta página sempre gera certa ansiedade. Isso porque qualquer escolha é excludente. Inúmeras outras opções ficam de lado para a eleição de um único livro. Assim como tudo em nossa vida: escolhemos algo e deixamos trilhões de outras possibilidades para trás. Saber se foi a decisão acertada, não há como. Apenas vamos escolhendo. Assim é com a casa, os simples utensílios que nela colocamos, mas também com outras resoluções de maior importância, como o marido, o namorado, a profissão, o filho. Cada escolha, então, requer uma ou várias recusas.

“Felicidade ou morte” foi a opção para esta publicação. Poderia ter sido um Best seller; um vencedor do Prêmio Pulitzer, mas não. Foi a Clóvis de Barros Filho e a Leandro Karnal que coube tomar este espaço. Esta preferência se deu por um motivo em específico: o título, afinal falar de felicidade nunca será demasiado cansativo ou tido como finalizado, sempre caberá mais um debate. Mais um pensamento. Mais uma tentativa de entendimento. E assim o é na obra destes dois grandes autores.
No livro, nada é dado como definitivo. Nem uma resposta exata sequer. São sim, oferecidas construções de pensamento que nos levem a formar nosso próprio conceito do que é felicidade. Ou onde a encontramos. Porque isso vai ser sempre único. O entendimento do que ela significa na vida de cada um, vai depender da vida de cada um. O que os autores nos fazem é clarear a busca por este entendimento. É mostrar os caminhos que podemos trilhar para chegar até ele.
Eles também nos alertam sobre possíveis vícios que desenvolvemos para justificar a busca pela felicidade, como o poder aquisitivo, por exemplo. “Primeiro vou ter isso, aí vou ser feliz”; “vou fazer tal viagem, e então, encontrarei a felicidade”; “vou ser promovido, alcançar o sucesso, receber um amento salarial, e, então, a felicidade se dará”. Não é preciso ser muito filósofo para perceber a falácia destas frases e a, também, sua insustentabilidade. No entanto, muitas vezes, sem perceber, sem ao menos querer que assim seja, vamos protelando a felicidade cotidiana, almejando apenas aquela que está presente na busca inalcançada. “A meu ver, a felicidade é muito mais conhecida pela sua ausência do que pela sua presença”, afirma Clóvis de Barros Filho, nas primeiras linhas do livro. “E por ela ser poucas vezes sentida, fica mais fácil fazer das condições para que ela aconteça um objeto de luta e uma questão ideológica”, continua o autor. Assim, justificaria a nossa desculpa em deixar para ser feliz depois. Depois de obter algo, depois de chegar a algum lugar. Quer dizer, isso tiraria de nós, no dia a dia, a responsabilidade de ser feliz. E esse discurso acaba sendo tão frequente que “o conceito de felicidade esvaziou-se como signo. Virou coisa de propaganda de margarina”, reitera Leandro Karnal. E aí entramos numa outra discussão que atrela felicidade com o “ter”; com o ser igual aos outros; ter o que os outros têm. É a tal história da grama do vizinho.
Poderíamos ficar aqui tratando das abordagens feita no livro, por linhas e mais linhas. Mas convido o leitor que antes faça a leitura do livro. Que tire suas próprias conclusões. Que avalie onde está a sua felicidade; a que ela está atrelada; porque, de uma coisa é certa, ela só depende de você. De como você leva a vida que tem e, principalmente, de como encara as escolhas que fez.
“Não patrocine para si mesmo uma vida triste. Até prova em contrário, esta vida é única e você tem as rédeas da própria trajetória nas mãos”.



Título: Felicidade ou morte
Autor: Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal
Número de páginas: 91
Editora: Papirus
Preço sugerido: R$ 20

23.9.16

O papai é pop


Lançado em 2015, a primeira edição de “O papai é pop” demorou pra chegar aqui em casa, muito embora tínhamos tudo para adquiri-lo logo na sua publicação. Afinal, assim como a maioria dos pais de primeira viagem, estávamos ávidos por informações sobre este maravilhoso mundo de ter filhos. Talvez tenha sido pela postura do autor, Marcos Piangers, no programa Pretinho Básico, que parecia meio arrogante, meio debochado, sei lá, figuras imaginárias que o rádio tem a capacidade de criar. Pois, pelo sim, pelo não, fui deixando este título de lado. Eis que este ano, com “O papai é pop 2” e “A mamãe é rock” resolvi abrir mão de meu pré-conceito e dei a Pinagers a chance de entrar em nossa casa. 
Foi uma visita curta, já que a obra é fácil e rápida de ler. Não foi necessário mais que uma semana (há alguns anos teriam sido 1 ou 2 dias, mas quem tem criança pequena vai me entender) para conhecer a obra. Uma leitura leve, divertida e bem atual. Com textos de temas diversos, o autor repassa as suas experiências com as suas duas filhas. Fala do assunto com naturalidade. Tanto, que parece uma conversa dessas que temos com outros pais quando queremos compartilhar de um assunto: “nossa, lá em casa entramos na fase das birras. Ele chora, se joga no chão, por nada. Sério?!, lá em casa também. Esses dias estava no mercado....” e por aí vai. Falando nisso, Piangers tem um texto sobre o “Terrible two” (expressão em inglês para “terríveis de dois”). E é maravilhoso saber que outros pais e mães passam por situações como as nossas. 
No livro, o autor também trata do que é fundamental para uma criança, desde a sua chegada em nossos braços, e não pense que ele trata sobre o berço ou o quartinho mobiliado e pintado, fraldas, tão pouco enxoval. Fala do amor. Esse elemento vital na relação pai e filho. Elemento que nos faz acordar a cada 2 horas de madrugada, ficar acordada o tempo que for necessário e ainda assim estar feliz porque o bebê está bem. Só amor para nos fazer abrir mão das jantas e encontros com amigos; do cinema; dos shows; festas; sono imaculado. Só o amor por um filho para mostrar que tudo isso é secundário. Que tudo isso é facilmente substituído por um sorriso banguela; um gritinho; o primeiro passinho; um “mamãe” que só você compreende. 
“O papai é pop” antes de falar do dia a dia com os filhos, fala de amor. O mais puro e verdadeiro sentimento de que podemos desfrutar.  
Sorte a minha que abri mão de um pré-conceito. Agora, já penso no próximo livro: “A mamãe é rock”. O que será que nos espera? Em breve, apresento aqui. 


Título: O papai é pop 
Autor: Marcos Piangers 
Número de páginas: 122
Editora: Belas Letras 
Preço sugerido: R$ 29

14.9.16

Noite em claro


Ao olhar para este livro você pode simplesmente ignorá-lo. Simples, pequeno, barato. A única coisa que poderá despertar a tua atenção é quem o escreve, Martha Medeiros, e aí, sim, você passa a dar a atenção que ele merece. 
Agora falemos menos da escritora e mais do livro. Neste que podemos também caracterizar como uma novela. Ou como diria um antigo professor: livro de uma sentada. E uma sentada rápida, há que se dizer. 
Em 30 minutos você é capaz de penetrar no romance que tem a duração de uma chuva. É assim que, decidida, a jornalista, protagonista da obra, conduz o livro: será escrito enquanto chove! 
Em uma noite de 12 de junho, o dia dos namorados e também da solidão, ela, a jornalista, decide que também terá uma obra pra chamar de sua. Começa o romance. Em questão de dois capítulos conhecemos Éder, o admirador secreto, Roger, o marido paraplégico, e o namorado com quem transou pela primeira vez, também numa noite chuvosa. Mais algumas linhas e chegamos a Carlos, o jogador de futebol de segunda divisão. 
No entanto, mais do que simplesmente relatar alguns dos seus relacionamentos, Noite em claro traz à tona aqueles pensamentos que somente na solidão, acompanhados apenas por um chocolate e uma boa bebida, são capazes de surgir. No dia a dia tentamos, e na maioria das vezes conseguimos com êxito, cumprir o papel social a que nos destinamos. Porém, nem sempre este papel revela o que realmente somos ou queremos ser. Impossível ser diferente. Ou, pelo menos, exige demais. Demais de atenção, coragem e tempo. 
Enquanto isso não acontece vamos encenando nossos dois papéis. Uns melhores, outros mais sofríveis, mas todos tentando. No caso deste romance é na escrita que a jornalista busca libertar o outro lado. O verdadeiro. O que dói. Machuca. Que assume sua infelicidade. É, talvez seja melhor mesmo que ele permaneça às escuras. Afinal se todos resolvêssemos dar ao mundo a realidade de si, ai ai quanta dureza. As vezes, disfarçando uma felicidade generalizada somos realmente felizes. 
Quer saber, deixemos, então, a verdade para dias de chuvas. Ou para livros não publicáveis, muitas vezes nem escritos.

Título: Noite em claro
Autor: Martha Medeiros
Número de páginas: 64
Editora: L&PM Pocket
Preço sugerido: R$ 5

13.7.16

Levado pela Arte e a Aventura

O tema desta coluna nos remete ao ano de 1928, pois é nesta data que, na pequena povoação de Gouvinho, Portugal, vem ao mundo Agostinho Lourenço Duarte, um dos artistas plásticos que, ao fazer o que melhor sabia, ajudou também a desenvolver e expandir a arte de Chapecó. 
Por hora, esqueçamo-nos do “Lourenço” e fiquemos apenas com Agostinho Duarte, como ficou conhecido este artista português que, pelo amor (à Edite, sua esposa), escolheu Chapecó por sua morada, em 1976. A ele, mais que admiração pelo trabalho desenvolvido, fica o agradecimento por ajudar a impulsionar o movimento artístico do Oeste do Estado, mais precisamente de Chapecó. Foi um dos fundadores do CHAP – Grupo Chapecoense de Artes Plásticas, em 1979; do SCPSC – Salão Chapecoense de Artistas Plásticos de SC, no início dos anos 80; da ACHE – Associação Chapecoense de Escritores, em 1986; e da ACHAP – Associação Chapecoense de Artistas Plásticos, em 2002. 
Mas calma lá, que começamos a falar dos trabalhos de Agostinho sem revelar o que o trouxe até aqui. Ou melhor, quem o trouxe até aqui: Torres Pereira. 
Com a obra “Levado pela arte e a aventura”, o amigo e colega apresenta a biografia detalhada e esmiuçada da vida e obra do artista. Volta à Portugal para fazer jus à história e à memória de Agostinho, pois é lá que tudo começa, quando aos 12 anos vê-se influenciado pelo tio pintor-decorador, Manuel Lourenço. 
Foi em meio a muito trabalho e pesquisa que Torres revelou a trajetória do artista e, com isso, fez um resumo das cerca de 220 mostras, individuais ou coletivas que este participou. Exposições ocorridas em Moçambique, Portugal, França e no Brasil. De acordo com a biografia, em 50 anos dedicados à pintura, teriam resultado telas a óleo e acrílico, desenhos, batiques, gravuras, murais, painéis, chegando a um total aproximado de 2.200 obras. A que se somar ainda a execução de capas e ilustrações de livros de Pedro Albeirice (Vendaval), Joel Rogério (Memória Imprecisa), Norberto Pontel (Ao Sabor do Vento), Silvério da Costa (Fogueiracesa), Anair Weirich (Reavivando Emoções) e, do próprio biógrafo, Torres Pereira (Guerra Tem Hora). 
“Levado pela arte e a aventura” nos leva a conhecer os trabalhos, as linhas e as cores, o ritmo da harmonia dos instrumentos de corda, como violão, piano, tanto explorados pelo artista, sem esquecer, claro, das curvas das moçambiacanas por ele tanto ressaltadas. Estas obras hoje estão espalhadas pelo acervo de museus, galerias e coleções particulares de Portugal, Espanha, França, Holanda, Dinamarca, Moçambique, Angola, África do Sul, Canadá, América do Norte, Argentina, Peru, Venezuela, Equador, México, Uruguai, Honduras e Costa Rica. 
Nas palavras de Torres, “Agostinho Duarte é autêntico, com emoções, afeto, nervo e involvências muito próprias. Toda a arte deste artista é um combate da materialidade através das vivências, essa dinâmica cósmica trazida até à cor”. 
Fica com este texto dois agradecimentos: ao próprio Agostinho pelo inegável legado construído; e também ao Torres que, por uma promessa pessoal, se colocou esta difícil tarefa de biografar mais do que um artista, mas um amigo que deixou saudade. 

“Quando pinto abandono-me completamente e a pintura faz de mim o que ela quer”, Agostinho Duarte (1928-2004).

Levado pela arte e a aventura
Autor: Torres Pereira

A parte que falta

Escrito e ilustrado por Shel Silverstein, “A parte que falta” é intitulada como literatura infantojuvenil, mas encanta e faz refletir os ...